Uma tarefa nada fácil, mas possível e necessária. Há tempo eu venho estudando, pesquisando e trabalhando esse tema. Sempre buscando alternativas de como romper o ciclo vicioso e sufocante imposto pela visão de curto prazo. Para falar mais sobre esse dilema convidei uma pessoa muito especial, a Veridiana Sonego. Ela é a Diretora de Planejamento Estratégico e Sistemas de Gestão da Randoncorp. Esteve comigo em uma jornada que realizamos nos últimos anos para melhor compreender o tema. No caso dela isto também evoluiu para a sua tese de Mestrado.
A arte de criar futuro(s) não é nova! Já recebeu, inclusive, diferentes nomes pela literatura (visão, planejamento estratégico, foresight,…). O relevante para você é compreender o tamanho do desafio e a oportunidade existente quando se consegue desenvolver um pensamento estratégico e de criação de futuros em ambientes hostis ou que pouco valorizam o médio e longo prazo.
Deixo, nos próximos parágrafos algumas informações e dicas elaboradas pela Veridiana para melhor mensurar o tamanho do desafio que é dar conta do hoje e ainda criar o futuro?
Em uma pesquisa realizada com 100 empresas de médio porte em 2021, revelou-se que somente 10% delas possuíam visão e estratégias bem definidas para os seus próximos três a cinco anos. Esta carência de visão de médio e longo prazos é um dilema que atinge a maioria das organizações classificadas como médias ou pequenas.
Somente 10% delas possuíam visão e estratégias bem definidas para os seus próximos três a cinco anos.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que aproximadamente 60% das empresas vão à falência nos primeiros anos. E a falta de planejamento é uma das principais causas desta mortalidade.
Os contextos são diversos, mas pode-se afirmar que todo empreendimento nasce de uma ideia. Porém uma ideia pode se manter bem sucedida por algum tempo, mas manter sua relevância em tempos de mudança contínua exige entender o mercado, a concorrência, as suas tendências, a sociedade e as complexas variáveis que envolvem um negócio.
Em pesquisa sobre o contexto de planejamento e inovação percebeu-se que as organizações e suas lideranças podem cair em algumas armadilhas:
- Achar que time que está ganhando não se mexe: nesta situação a liderança não está aberta à mudança. Os resultados (e o ganho do empreendedor) trazem a acomodação de que não se deve mexer no que está funcionando. Porém, resta a dúvida: quando a disrupção chegar, não será tarde demais?
- Apagar incêndios: neste caso a liderança vive o hoje e não tem recursos nem fôlego para imaginar o amanhã. No contexto que se vende o almoço para pagar a janta, estudar o amanhã não está nas prioridades da organização. Porém, as dificuldades de gestão podem ter iniciado pelo planejamento mal construído.
- Não mexa no meu queijo: a resistência da liderança ao novo pode limitar o planejamento e a inovação, fazendo com que a organização se mantenha realizando o que sempre foi feito. Num mundo onde a mudança é a constante, esta receita tem data de validade.
Para não cair nestas armadilhas e em outras mais, sugere-se:
- Primeiramente reconhecer que isto é necessário e não pode mais ser delegado ao acaso: a construção de um planejamento bem feito é fator crucial para a continuidade da organização.
- Criar uma cultura de Foresight: o estudo de tendências e sinais fracos tem o poder de ampliar a visão e trazer esses fragmentos de futuro para as ações do presente.
- Ampliar a sua rede de “braços”: você precisará de ajuda sim!
- Priorizar o tema em sua agenda: seu próprio exemplo será determinante no processo.
- Estudar e escutar seu ambiente: clientes, concorrência, parceiros, equipe interna e sociedade. As fontes primárias são mais ricas, portanto, recomenda-se ouvir e, se possível, construir as estratégias a partir de uma visão ampliada.
- A liderança deve mobilizar a organização para a execução da estratégia. Afinal, estratégia sem execução é como treinar para a maratona e não disparar com a largada.
Estudar o futuro, realizar planejamento, criar visões de futuro e executar as estratégias não são tarefas simples. Exigem estudo, disciplina, mobilização de diversas pessoas dentro e fora da organização. Estas são responsabilidades da liderança. O planejamento bem-feito e sua execução com disciplina têm o poder de transformar as organizações. Sem sombra de dúvidas, são fatores de sucesso de várias empresas que expandem seus negócios e crescem em seus mercados com resultados sustentáveis.
A visão de longo prazo é uma competência que pode ser exercitada.
E, em tempos de mudança, líderes com esta habilidade se destacam pelas contribuições nas estratégias dos negócios e influência em sua cultura. Líderes visionários são capazes de estudar o futuro, perceber oportunidades e guiar suas equipes em oportunidades ainda não perceptíveis a todos. Isso os faz líderes transformacionais e as empresas, inovadoras.
Muito obrigado Veridiana, pela sua contribuição na construção desse material. Agora só resta a você aproveitar algumas dessas dicas para dar o seu primeiro passo junto a sua organização!
Resumo das dicas sobre o dilema:
1 - Reconheça que isto é necessário e não pode ser delegado ao acaso;
2 - Crie uma cultura de estudo de tendências e sinais fracos;
3 - Amplie a sua rede, pois você não precisa fazer isto sozinho;
4 - Estude e escute o seu ambiente, construindo estratégias a partir de uma visão ampliada.
Daniel Martin Ely e Veridiana Sonego
Referências:
- https://www.infomoney.com.br/negocios/apenas-10-das-medias-empresas-no-brasil-tem-planejamento-de-longo-prazo-revela-pesquisa/
- https://sebraepr.com.br/comunidade/artigo/a-falta-de-planejamento-e-um-dos-viloes-da-mortalidade-das-empresas-no-brasil
- Sonego, Veridiana. Design estratégico e criação de cenários futuros. Porto Alegre: Unisinos, 2023.


